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Entrevista Jornal da Cidade BH – Viver com Saúde

René Berindoague fala sobre as doenças causadas pela obesidade e sobre o aumento da procura pela cirurgia bariátrica

A obesidade atinge 30 milhões de brasileiros e cerca de 600 milhões de pessoas ao redor do mundo. Para o médico cirurgião René Berindoague, diretor técnico do Instituto Mineiro de Obesidade, é precisar desmistificar a ideia do “gordo feliz”, já que obesidade traz consigo vários tipos de problemas. Nesta entrevista ao JORNAL DA CIDADE, o médico fala sobre os cuidados que todas as pessoas devem ter.

JORNAL DA CIDADE O que é obesidade e quem pode ser considerado obeso?

A obesidade é uma doença caracterizada pelo excesso de gordura no corpo, que ocorre quando a oferta de calorias é constantemente maior que o gasto de energia corporal, resultando em sérios prejuízos à saúde. Pré-disposição genética, dieta inadequada, fatores metabólicos e sociais são quase sempre encontrados nessa população. Para determinar se uma pessoa é obesa ou não, deve-se utilizar uma fórmula para calcular o Índice de Massa Corporal (IMC).

Quais os principais problemas de saúde que estão relacionados à obesidade?

Deve-se desmistificar a figura do “gordo feliz”, já que obesidade é fonte de vários tipos de problemas, não somente estéticos, mas que afetam diretamente a saúde do indivíduo. Entre as principais doenças estão problemas articulares e de coluna, hipertensão arterial, diabetes, problemas cardiovasculares e respiratórios. A condição de obesidade grave está associada a outros problemas de saúde, como elevação dos níveis de colesterol e triglicérides (chamada dislipidemia), risco aumentado de embolia pulmonar por alterações da coagulação sanguínea, incontinência urinária, transtornos hormonais do tipo menstrual em mulheres, e até câncer no útero, mama, intestino grosso e outros órgãos. Deficiências de vitaminas e minerais também podem estar presentes na obesidade. Distúrbios de natureza psicológica que afetam diretamente o indivíduo, sua autoestima, insegurança e um numeroso quadro de doenças, de difícil tratamento, surgem no paciente obeso.

Qual o panorama da obesidade em Minas e no Brasil? É mais presente entre homens ou entre mulheres?

Atualmente, a obesidade atinge 600 milhões de pessoas em todo o mundo, 30 milhões somente no Brasil. Se incluirmos os indivíduos com sobrepeso, esse número aumentaria para 1,9 bilhão de pessoas, sendo 95 milhões de brasileiros com tendência a um cenário pior para os próximos anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que, em 2015, existirão 2,3 bilhões de pessoas com excesso de peso e 700 milhões de obesos no mundo inteiro. A obesidade não deve ser tratada apenas como um problema estético ou social, mas uma entidade que pode causar sérios problemas à saúde e favorecer o aparecimento de diabetes, hipertensão arterial, aumento do colesterol, dentre outras.

Dentro desse contexto, tem aumentado a procura pela cirurgia bariátrica? Por quê?

Sim, somente no hospital onde trabalhamos são realizadas seis operações de obesidade por dia. O número de cirurgias bariátricas no Brasil cresceu 275% nos últimos sete anos, por se tornar a cada ano um procedimento cada vez menos agressivo e mais eficiente. Conforme dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCM), em 2003, quando as operações abertas eram as mais comuns, 16 mil pessoas passaram pelo procedimento. Já em 2010, o número de cirurgias chegou a 60 mil, sendo 35% delas por videolaparoscopia, um método não invasivo feito com o auxílio de uma microcâmera, possibilitando mais conforto e melhor recuperação pós-operatória. Entre os motivos está, lógico, o aumento no número de obesos. Mas a implantação e o acesso às novas tecnologias têm contribuído para esse aumento.

Quais critérios indicam que é adequada a cirurgia bariátrica?

A cirurgia pode ser feita por pessoas entre 16 e 65 anos de idade, que não tenham respondido durante dois anos a outros tratamentos para emagrecimento. Também é obrigatória a constatação de “intratabilidade clínica da obesidade” por um endocrinologista. Algumas condições pessoais podem impedir, no entanto, a realização de procedimentos cirúrgicos para o controle da obesidade, como, por exemplo, a limitação intelectual significativa em pacientes sem suporte familiar adequado. Também impossibilitam o procedimento quadros de transtorno psiquiátrico não controlados, incluindo uso de álcool ou drogas ilícitas. No entanto, quadros psiquiátricos graves sob controle não são contra indicativos à cirurgia.

Quais são os avanços existentes nessa área?

Podemos citar como principais avanços a democratização de tecnologias avançadas, por meio da inclusão do videolaparoscopia como procedimento coberto pelas agências de saúde e, agora, o trabalho da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica para a inclusão do mesmo procedimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Quais cuidados necessários no pós operatório?

É importante que o paciente siga todas as orientações de seu médico e, sobretudo, continue com o acompanhamento médico com o cirurgião e com a equipe necessária (psicólogo, preparador físico, nutricionista e cardiologista) durante os cinco anos que seguem a cirurgia. É comum o paciente, após perder peso, parar de seguir as recomendações, adotar uma vida sedentária e deixar de lado a dieta saudável, o que poderá comprometer o resultado alcançado, sendo comum, nesses casos, o reganho de peso.

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Cirurgia por vídeo beneficia 54 pacientes por ano

Inclusão do procedimento bariátrico no rol da ANS beneficia 54 mil pacientes bariátricos em um ano.

O volume de cirurgias bariátricas e metabólicas por videolaparoscopia no Brasil dobrou em 2012, somando 54 mil procedimentos, e já representa 75% das cerca de 72 mil operações bariátricas que são realizadas no país. O salto na adesão à videolaparoscopia verificado em apenas um ano se deve à mudança na legislação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), que, desde janeiro de 2012, obriga os planos e operadoras de saúde a oferecerem tratamento cirúrgico sem qualquer restrição aos portadores de obesidade mórbida, respeitando a decisão médica e o direito do paciente.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), Almino Ramos, a medida representa um enorme avanço na atenção ao paciente bariátrico. “A inclusão da cirurgia bariátrica por videolaparoscopia pela ANS é uma conquista tanto para o paciente quanto para a classe médica, que passou a ter respeitado o direito de escolha do método mais moderno, menos invasivo e menos doloroso”, reforça o Dr. Almino.

Porém, mesmo com a melhora do cenário, muitos pacientes ainda continuam sendo submetidos à cirurgia aberta, que é mais invasiva e exige uma recuperação mais lenta. Dados mais recentes divulgados pela ANS posicionam a cirurgia bariátrica como o segundo procedimento mais negado pelas operadoras de saúde, perdendo apenas para a marcação de consultas médicas.
“Em Pernambuco, a melhora foi sensível desde a inclusão da cirurgia bariátrica por videolaparoscopia no rol da ANS, mas corriqueiramente os planos de saúde estatais e operadoras regionais negam o procedimento”, analisa o presidente do Capítulo de Pernambuco, Dr. Pedro Cavalcanti de Albuquerque. A mesma opinião é partilhada pelo representante da Sociedade no Piauí, Dr. Gustavo Santos. “Cerca de 10% dos procedimentos aqui no Piauí ainda são negados, obrigando os pacientes a buscarem seus direitos na Justiça. Outros convênios não negam, mas criam inúmeras barreiras.”

Reclame seus direitos

Caso a cirurgia bariátrica seja negada por convênios ou operadoras de saúde, o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) recomenda que o consumidor tente, em primeiro lugar, entrar em contato com a instituição, expondo seu problema e exigindo uma solução, preferencialmente por escrito. Não obtendo sucesso, ou mesmo em caso de emergência, é possível entrar na Justiça. É importante notificar os órgãos de defesa do consumidor e a ANS, para o registro dos problemas e maior fiscalização.

Fonte: www.sbcbm.org.br